Arquivo para dezembro \21\UTC 2010

O Esquenta Galho

Escrevi isso esses tempos, motivado por um trabalho para a aula (muito chata, por sinal), mas vale o registro. Foi na época em que o Marcílio Dias ainda estava na segunda divisão do Campeonato Catarinense. Trata-se de uma crônica. Entenda porque:

O Esquenta Galho

 Não existe em Itajaí e região lugar mais democrático e divertido do que o esquenta galho. É assim que nós, marcilistas de coração, chamamos a arquibancada descoberta do estádio Dr. Hercílio Luz, também conhecido como Gigantão das Avenidas, no centro da cidade. O apelido carismático, não se sabe da onde vem, mas representa a união dos torcedores, que ali – geralmente com o sol forte na cabeça e o odor saboroso dos espetinhos de gato que exalam debaixo dos degraus – se reúnem em todos os jogos em casa do Marinheiro.

Só quem assiste aos jogos no esquenta galho sabe do que estou falando. Ali frequentam por jogo entre 300 e 500 torcedores, faça chuva ou sol. É nesse espaço que médicos, advogados, garis e desempregados estão em igualdade social e de opinião, falam as mesmas besteiras, xingam, aplaudem e dão risadas juntos, como velhos amigos, sem mesmo se conhecer pelo nome. Eles vêm de todos os lugares possíveis, dos residenciais da Praia Brava aos barracos do Imaruí. A espontaneidade e a criatividade são as marcas registradas desses torcedores. Por jogo, Nelson Rodrigues escreveria pelo menos cinco crônicas, só aproveitando as pérolas disparadas pelos marcilistas. Os adjetivos são tantos, e tantos impublicáveis, que não cabem nesse texto.

É o zagueiro turrão que vai expulso, é o goleiro frangueiro que faz gestos para torcida, o juiz e o bandeirinha que estão sempre roubando o nosso time, o gândula que escorregou pra buscar a bola, o centroavante que perdeu um gol feito e o lateral, que por aquele lado corre, e entende mais do que ninguém o que são os corneteiros do esquenta galho. É o grito de ‘Cilio! Cilio!” quando o time consegue um ataque perigoso. O gol então, é uma catarse.

O esquenta galho é como um clube fechado – que as vezes, infelizmente, fica infestado dos indesejados secadores – onde o mesmo grupo de sócios – sem carteirinha, nem contrato – se reúne de domingo em domingo. A diferença é que ali não se tem vantagens, nem benefícios. Não é o Itamirim onde a burguesia se junta para ver quem tem o carro melhor, quem tem o melhor emprego e salário, e se esbaldar no mega conjunto de piscinas, campos de futebol e quadras de tênis. A graça de ser marcilista é justamente sofrer e dar risada, na derrota, na vitória e no empate. Sem conforto, no concreto e debaixo de sol.

Quantas vezes, nós marcilistas, não deixamos aquele estádio jurando nunca mais pisar àquele concreto mal cuidado, depois de mais uma decepção daquelas. Pergunte quantos apareceram no domingo seguinte e a resposta será: os mesmo de sempre, ninguém resistiu a tentação de ver o Cílio de novo em campo. “Deviam destruir isso aqui e construir uma pista de patinação no gelo”, ouvi certa vez na saída do portão para a avenida Marcos Konder, após uma derrota vergonhosa. “Deviam mesmo é fazer uma zona gigante pra gente que vem aqui sofrer”, rebateu outro torcedor.

Hoje, 90% de Itajaí não entende como que o Marcílio Dias resiste aos 90 anos, falido e na segunda divisão do campeonato catarinense, com uma sala de troféus quase vazia e empoeirada. A indignação é maior ainda ao ver o velho Dr. Hercílio Luz, ocupando um espaço enorme no centro da cidade, que poderia ser, na opinião deles, um shopping, um mega condomínio… Esses, creio, nunca assistiram a um jogo no esquenta galho para entender por que o velho Marinheiro nunca vai fechar as portas.

No último domingo, os marcilistas voltaram a assistir ao rubro-anil do esquenta galho. Interditada desde o começo da temporada, por problemas estruturais, a arquibancada lateral precisou passar por reformas, e contra nossos princípios, tivemos que ver vários jogos na chamada arquibancada da Cassol, atrás de uma das traves.

A alegria de pisar novamente o esquenta galho bateu com a vitória suada por 1 a 0 em cima do Tubarão, que nos colocou na liderança do campeonato e a dois pontos do título do returno. Uma partida feia, sem inspiração e de futebol indigesto. Mesmo assim, o torcedor saiu rindo à toa, não tem jogo ruim no esquenta galho.

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Cultuar #2 na web

A segunda edição da revista Cultuar, lançada lá em fevereiro desse ano, foi parar na web graças ao Issuu, em breve posto também a primeira edição. Pra quem não sabe, a Cultuar é uma revista voltada exclusivamente a arte de Itajaí, e tem o apoio da Lei de Incentivo a Cultura local, por isso não tem periodicidade. Pra quem curtiu, em janeiro e fevereiro de 2011 saem mais duas edições, já em produção. Por enquanto leia a Cultuar com a Yellow Box na capa, que traz ainda a história do N.E.F.A., e uma ótima entrevista com o Valentim Schmoeler, grande figura do teatro itajaiense. Leia aqui: http://www.issuu.com/cultuar


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